Um pouco antes de começar o ensaio, o Pereira foi enfático:
– A gente devia ir lá, sim. Amigo é pra essas coisas.
O Silva foi evasivo:
– Sei não. Vamos falar o quê?
O Araújo deu uma força pro Pereira:
– Falar eu não sei. Mas só nossa presença vai fazer bem pra ele.
O Machado discordou:
– Tem que ser muito cínico pra falar uma coisa dessas.
O Bila perguntou pro Mané:
– O que que `cê acha?
O Mané respondeu:
– Acho que o Silva tá certo. Dizer o quê? Vai ser pior.
O Pereira não abria mão:
– A gente precisa dar uma força pra ele sim, pôxa. Animar o cara. Que tipo de amigo a gente é?
O grupo todo respondeu:
– Umas drogas!

E começaram a tocar. Precisavam estar afinados. Tinham vários shows marcados pelo bairro. Afinal, o Sangue Negro, era assim que se chamava o grupo de pagode, estava começando a ficar famoso.
Mas naquele dia, ninguém estava muito inspirado. Depois do samba: “Eu sei que não sou digno”, de autoria do Mestre Cuíca, decidiram parar e ir beber no bar mais próximo. O Pereira ainda tentou insistir, queria porque queria ir visitar o amigo, mas foi voto vencido. Então ficou assim, ninguém foi visitar o Alemão, o açougueiro albino, fã ardoroso do conjunto e que era pai pela primeira vez. A mãe era a Branca, uma norueguesa que mal falava a nossa língua. E o filho: preto. Como não podia ser.
O Bila ainda perguntou pro Mané:
– O que que `cê acha?
O Mané foi sincero:
– Falar o quê, Mano? Falar o quê? Acho que o Pereira quer ir lá pra ver se o menino se parece com ele. Acho que é isso. Mas eu acho que o filho é meu. – É meu! É meu! – O Bila teve a impressão de ter ouvido todos gritarem.

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