(ou a cultura do entretenimento vulgar)

Vivemos uma época de idiotização total do ser humano. Nenhum de nós (ou quase) quer ter o trabalho de pensar. Discutir, para quê? Debater, jamais! Todos nós só queremos curtir.

Assim rejeitamos toda forma de suor intelectual, de esforço mental, de diálogo útil em prol da zoeira e da felicidade. Porque ser feliz é o que vale na vida. Então todos nós somos piadistas, humoristas do cotidiano, principalmente nas redes sociais.

Os nossos comentários são sempre curtos e, na maioria das vezes, têm o objetivo de levar alegria aos olhos e ouvidos dos nossos amigos. É que temos que ser bacanas. Temos que mostrar ao mundo que somos pessoas de bem com a vida. Temos que aparentar que somos engraçados de verdade.

Se não, estamos fora do eixo. Somos excluídos, sofremos bullying. Bullying! Hahahahahahahahahahahhahahahahaha. Hashashashashashashashashas. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk… Rsrsrrsrsrsrsrssrrsrsrsrsrsrsrsrs.

É a cultura do riso fácil, imediato, instantâneo, acima de qualquer coisa. Basta rir e tudo está bem. Nada contra o bom humor, claro. Não sou um ranzinza inveterado. Eu adoro rir, quem não gosta? Mas não precisamos ser tão superficiais a todo momento. O riso alivia e acalma, mas em excesso, anestesia. É letárgico.

Daí nós não nos importamos com mais nada. Não estamos nem aí para as eleições municipais ou para o mensalão. Não ligamos que nos façam de tontos proibindo e depois voltando com as sacolinhas nos supermercados. Lei da Cidade Limpa em Ribeirão? Hahahahaha. Piada. É melhor rir. Mesmo?

As músicas monossilábicas, onomatopaicas proliferam-se como pragas em ambientes assim. “Galera, sem essa de se preocupar, vamos é se [sic] divertir. Eu quero tchu, eu quero tcha e … tchê tcherere tchê tchê tchê tchê.”

E viva o entretenimento! En-tre-te-ni-men-to. Palavra da moda, cultuada e perseguida por empresas e gente de carne e osso. Mas peraí, você sabe o que é entreter? Em boa parte, entreter significa distrair, recrear, fazer passar o tempo. Ou seja, se você entretém alguém não faz nada demais. Afinal, qualquer um, qualquer coisa pode entreter.  De uma mosca sem asas a uma bolinha de papel. De um palhaço sem graça a um plástico bolha.

Entreter por entreter é pobre, raso demais. Aliás, esse mundo está raso demais. Mini demais. Nossos pensamentos não podem ter mais do que 144 caracteres, nossas frases têm que ser diretas e objetivas. Uma linha apenas, duas no máximo. Caso contrário, ninguém tem paciência para acompanhar e o raciocínio se perde. O cérebro não processa. Entendeu?

Não? Espera um momento que vou desenhar, vou grunhir. Argh!

Que mundo raso! Ou como diria Nelson Rodrigues: “…tão profundo que uma formiga atravessaria com água pelos tornozelos”. Ou em outras palavras, bem simples: quanto mais idiota melhor.

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