As Intermitências da Morte

A visão romântica é de que viveríamos felizes para sempre. Imagine só a imortalidade para todos nós. Viva! Mas calma lá. Seria só felicidade mesmo?

No livro “As Intermitências da Morte”, o português José Saramago, nobel de literatura,  nos oferece um mundo em que a morte se ausenta, mas todo o resto continua. Pessoas não param de envelhecer, doenças não somem do mapa, a violência não dá trégua.

Então, do que adianta? Sociedade, Estado e Igreja entram em colapso. O mundo explode demograficamente, funerárias quebram, hospitais e lares de idosos ficam abarrotados, e a igreja fica sem função, já que ninguém mais passa ‘dessa para melhor’.

Com a sua peculiar e refinada ironia, o autor nos envolve em uma trama que se desenrola apresentando a ceifadora de vidas de forma sensível e humana.

Sim, a morte tem coração. E diante de tantos problemas que a sua falta acarreta conseguimos enxergar os benefícios de seu penoso trabalho. Pobre alma penada!

Saramago lança mão de uma hipótese original e desfila seu estilo crítico-reflexivo fortalecendo a sua marca registrada: um texto com estrutura diferenciada, em que descrições, diálogos e fluxos do pensamento estão juntos e misturados.

Para quem não está acostumado, a princípio essa miscelânea pode causar estranheza. Porém, depois de algumas páginas, não tem como não se sentir fisgado. Destaco o depoimento de Gabriela Silva a respeito: “Invejo aqueles que ainda nada leram de Saramago, eles podem descobri-lo ainda”.

Se você ainda não leu, faça-o o quanto antes. Você vai ver a morte com outros olhos.

E a vida também.

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