“A VIDA QUE VALE A PENA SER VIVIDA” DE CLÓVIS DE BARROS FILHO E ARTHUR MEUCCI, RESENHA

A vida que vale a pena ser vivida

Um livro inconclusivo e, por isso, interessante.

Ao longo da obra, preceitos filosóficos são apresentados com o intuito de conceituar o que seria uma vida boa e quais os caminhos (possíveis) para alcançá-la.

Porém no final não há nenhum lista ou resumo relembrando tudo aquilo que foi apregoado. Não há moral da história, porque o “filósofo pode te ajudar fazendo perguntas que motivem a reflexão. Mas não conte com ele para dar a resposta certa no final”, os autores alertam ainda no início.

Isso é ruim? É honesto. O que se pretende é uma reflexão crítica sobre os critérios mais consagrados sobre viver bem. Mais uma vez no início, o livro tem outra advertência: “…a soberania para deliberar sobre a própria vida – como todos os riscos – é nosso único e verdadeiro patrimônio. Inalienável.”

Então, livres do compromisso de dar a receita infalível para uma vida feliz e plena, os autores vão desfilando os pensamentos de Platão, Sócrates, Sêneca, Epicuro, Espinoza, Kant, entre outros.

Com uma linguagem simples, descontraída (às vezes até em excesso) e exemplos práticos, tirados do dia a dia, as ideias tomam forma. Se eu recomendo? Sim, é uma leitura leve e cumpre o papel: faz refletir.

Em cada capítulo, pincei uma frase para transmitir a essência da obra. Notem que algumas delas são complementares, outras um tanto quanto contraditórias. Como a própria vida.

VIDA PENSADA: A vida valerá tanto mais a pena ser vivida quanto menos o corpo e seus apetites derem as cartas.

VIDA AJUSTADA: A vida que vale a pena… vale por ela mesma. No instante em que é vivida. E isso acontece quando nos ajustamos ao universo. Ocupando o lugar que é nosso, desempenhando com excelência a atividade para a qual fomos talhados e buscando a finalidade que é nossa como parte do todo.

VIDA PRAZEROSA: Só a busca do prazer – que pressupõe a satisfação dos desejos naturais e necessários com comedimento – permite a realização da felicidade. Porque a busca da satisfação de outros tipos de desejo e exageros são perturbadores. Tanto nos sucesso como no fracasso.

VIDA TRANQUILA: Só começaremos a ser felizes quando aceitarmos que o mundo não gira ao nosso redor. Que as pessoas não foram feitas pelos deuses para atenderem suas carências. Por isso, a tranquilidade, condição da vida boa, pressupõe a desesperança. A conciliação com a realidade.

VIDA SAGRADA: Para viver bem é preciso confiar. Confiança num Deus que, de fora, criou o mundo. Transcende ao mundo, portanto.

VIDA POTENTE: E, assim vamos: em luta pelos encontros alegres de nosso corpo com o mundo; por evitar os tristes; por imaginar coisas que aumentam a potência de agir do corpo e a potência de pensar da alma; bem como evitar as imaginações que enfraquecem, que refreiam ambos.

VIDA ÚTIL: Somos herdeiros de um saber prático que nos permite deliberar não só em função do que estimamos causará a felicidade hoje, mas também a dos que estão por vir.

VIDA MORALIZADA: Não é possível conceber coisa alguma no mundo, ou mesmo fora do mundo, que sem restrição possa ser considerada boa, a não ser uma só: a boa vontade.

VIDA SOCIALIZADA: Já que a sociedade triunfa sobre nossa singularidade afetiva, a vida boa pressupõe um alinhamento. Uma adequação entre nossas inclinações e o que os demais esperam de nós. Para que nos aplaudam. Ou para que apanhemos menos.

VIDA INTENSA: Nesta centelha de vida intensa gostaríamos que tudo ficasse como está. Que nada mudasse. Centelha de eternidade no mundo da vida.

Repito, para mim, valeu.

 

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