Sou fã de Lourenço Mutarelli. O livro “O Cheiro do Ralo” é fantástico e me provocou náuseas e entusiasmo. Leia, caso ainda não o fez. É imperdível.
Com “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, Mutarelli mergulha novamente no tédio e no vazio existencial. Mas, dessa vez, sem o mesmo brilhantismo. Mesmo assim, vale a pena conferir.
O personagem principal é Junior, um cara de 40 e poucos anos que volta a morar com pai depois de perder a mulher e o emprego. Sem grana e sem vontade nenhuma de dar a volta por cima, Junior cai em uma rotina alcoólica que o deixa mais confuso e debilitado. Apesar disso, a sua relação com o pai é amistosa, sem grandes conflitos. Já com Bruna, a jovem bonita e inquilina da casa, a relação é um pouco conturbada.
Junior sente atração por ela, mas não sabe direito o que fazer, até porque com o passar dos dias, ele vai perdendo cada vez mais o prumo, se distanciando da lucidez, abraçando a loucura. É um retrato da desintegração do indivíduo, que de uma hora para outra pode se desmantelar, basta um passo em falso.
A narrativa é árida, tensa, criada para transmitir um niilismo sufocante. E sufoca mesmo. Tanto que sinto falta de um pouco de ironia, de um mínimo de humor que abrande a história. Penso que Mutarelli costurou de propósito todas as cenas nesse clima sombrio. Sua intenção é esganar.
No mais, aprecio bastante a linguagem crua e as frases curtas do autor. As referências ao HQ, ao cinema e ao Kafka estão todas ali. É muito bom, sem precisar ser brilhante. Como eu disse, sou fã do cara.

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