Zygmunt Bauman, o filósofo polonês que faleceu há poucas semanas, nos deixou um importante legado analisando a sociedade contemporânea. Era um observador crítico, preciso e mordaz.

Uma de suas teses mais famosas é essa: “vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar”. Os tempos são líquidos porque tudo muda rápido, rapidamente. Nada é feito para ser definitivo, sólido. Desse pensamento e estilo de vida resultam, entre outros aspectos, a obsessão pelo corpo perfeito, a reverência às pessoas famosas, a paranoia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas, que toma várias formas. Líquido. Que metáfora! Que explicação.

No entanto, para efeito de reflexão, me permita discordar um pouco. Bauman, me perdoe, mas terei a ousadia de ir além na crueza de sua observação. É um pensamento diferente, seguindo a mesma linha.

Entendo que vivemos tempos gasosos. Sim, as coisas não estão apenas tomando novas formas, não são como uma onda: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Muitas coisas estão simplesmente se dissipando. Pá puff. Empresas. Empregos. Estabilidade. Tolerância. Ética. Convicções. Crenças. Certezas.

É um exagero? É pessimismo? É para refletirmos, como alertei acima.

Veja, por exemplo, o que está acontecendo com as nossas lembranças. A nossa memória está reduzida a um acessório de luxo. Não precisamos mais dela, por isso não exercitamos mais o ato de recordar e reconhecer. Não é mais necessário gastar energia para arquivarmos conhecimento, sentimentos, momentos (ou seja lá o que for), em nossa cabeça e coração. Temos o google, temos fotos, temos vídeos aos borbotões para fazer esse papel.

Penso que vivemos tempos gasosos porque deixamos o nosso dia a dia se esvanecer em um piscar de olhos. Porque a nossa vida se dissipa em um passe de mágica enquanto estamos envoltos com a tecnologia, com nosso próprio umbigo, com nossa zona de conforto. Vivemos tempos gasosos. Cortina de fumaça. Tempos nebulosos.

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