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Raul Otuzi

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Tempos líquidos ou tempos gasosos. Que tempos vivemos?

Zygmunt Bauman, o filósofo polonês que faleceu há poucas semanas, nos deixou um importante legado analisando a sociedade contemporânea. Era um observador crítico, preciso e mordaz.

Uma de suas teses mais famosas é essa: “vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar”. Os tempos são líquidos porque tudo muda rápido, rapidamente. Nada é feito para ser definitivo, sólido. Desse pensamento e estilo de vida resultam, entre outros aspectos, a obsessão pelo corpo perfeito, a reverência às pessoas famosas, a paranoia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas, que toma várias formas. Líquido. Que metáfora! Que explicação.

No entanto, para efeito de reflexão, me permita discordar um pouco. Bauman, me perdoe, mas terei a ousadia de ir além na crueza de sua observação. É um pensamento diferente, seguindo a mesma linha.

Entendo que vivemos tempos gasosos. Sim, as coisas não estão apenas tomando novas formas, não são como uma onda: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Muitas coisas estão simplesmente se dissipando. Pá puff. Empresas. Empregos. Estabilidade. Tolerância. Ética. Convicções. Crenças. Certezas.

É um exagero? É pessimismo? É para refletirmos, como alertei acima.

Veja, por exemplo, o que está acontecendo com as nossas lembranças. A nossa memória está reduzida a um acessório de luxo. Não precisamos mais dela, por isso não exercitamos mais o ato de recordar e reconhecer. Não é mais necessário gastar energia para arquivarmos conhecimento, sentimentos, momentos (ou seja lá o que for), em nossa cabeça e coração. Temos o google, temos fotos, temos vídeos aos borbotões para fazer esse papel.

Penso que vivemos tempos gasosos porque deixamos o nosso dia a dia se esvanecer em um piscar de olhos. Porque a nossa vida se dissipa em um passe de mágica enquanto estamos envoltos com a tecnologia, com nosso próprio umbigo, com nossa zona de conforto. Vivemos tempos gasosos. Cortina de fumaça. Tempos nebulosos.

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APELOU, GANHOU (ou quanto mais polêmica, melhor)

Havia uma frase recorrente usada em minha turma de amigos: “apelou, perdeu a razão.” Era uma maneira de tentar evitar explosões de mágoas e encerrar discussões diante de nossas brincadeiras (algumas de gosto duvidoso sim, diga-se de passagem).

Hoje, com as redes sociais, as opiniões polarizadas e os ânimos exacerbados, essa frase está perdendo o sentido. A regra, principalmente para quem quer ganhar holofotes, é apelar à vontade. Porque quem apela ganha visibilidade. Então, a ordem é gerar polêmica. Seja para marcas, artistas ou pessoas.

Veja o caso da Alezzia, a empresa de móveis acusada de machista, que apelou para uma promoção prometendo cadeiras de rodas para a ACCD se fosse bem avaliada no facebook. Veja o caso do clipe de Clarice Falcão, que utilizou corpos nus em seu videoclipe.

Como temos grupos de pensamentos contrários e um aparato bem montado de patrulha ideológica, qualquer movimento mais brusco provoca uma onda de ataques enviesados, de lado a lado.

São feministas X machistas, esquerda X direita, veganos X carnívoros, ateus X religiosos, conservadores X progressistas, ilusionistas X realistas, opressores X libertários e por aí vai.

É, meus amigos, quem apela… ganha. Ganha publicidade gratuita, ganha luzes, vira trending topic. E se é para ganhar fama, vale tudo. Vale inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher (tô fazendo referência à música do Tim, hein, nada contra, peloamor).

Ah, e vale mais, vale até lançar a chocofritas, a batata frita com cobertura de ovomaltine. Gosto duvidoso? Imagina. É só pra criar uma polemicazinha… hehe.

Não seja refém do facebook

Você não precisa consultar a sua página de minuto em minuto. Não precisa atualizá-la toda hora. Nem todo dia. Você não será uma pessoa melhor ou pior pela quantidade de likes que seu post tem. Também não precisa se tornar um compulsivo, checando quantos compartilhamentos sua mensagem gerou. Alguns comentários são negativos? Ótimo. Separe os que têm opinião contrária, mas que são relevantes e tente aprender algo com eles. Os que simplesmente vociferam contra você, sem um mínimo de bom senso, delete-os. Ao menos da sua mente. Tem gente que só quer ser do contra e causar para aparecer. Não dê IBOPE para eles.

E não chegue em casa ou no restaurante ou no boteco da esquina ou na faculdade e fique com o celular sempre à mão. Deixe o wi-fi em paz. Não vire um corcunda, com a cabeça sempre baixa, um ermitão tecnológico, alheio às pessoas, cores, luzes e sons do ambiente. Tem tanta coisa boa para ser sentida e absorvida de verdade!

Não tire fotos de tudo. Não exiba sua vida como se fosse uma subcelebridade carente precisando de holofotes. Quer se expressar? Muito bom. Mas não faça disso o que há de mais importante na face da Terra. Aproveite o vento na cara. Olhe nos olhos das pessoas. Tem gente que ainda gosta disso, sabia? Aliás, tem gente que precisa disso. Calor humano.

Ah! E, principalmente, não deixe que a sua timeline seja a sua principal fonte de contato com o mundo. Não receba as notícias, atualizações e conteúdo de forma passiva. Seja o próprio curador do que lhe interessa. Busque as informações de acordo com suas aspirações e motivações. Não consuma apenas o que cai em seu colo, na ponta de seus dedos. Isso é tão cômodo e tão pobre!

Que o facebook tem um montão de coisa bacana ninguém duvida. Entretanto do jeito que está sendo usado, com tanto exagero, está passando como um trator por cima de nosso dia a dia. Por isso tome as rédeas dos acontecimentos, não deixe que eles rolem simplesmente pela sua tela, faça parte. Largue o vício. Use o facebook com parcimônia.

Se eu consigo fazer tudo isso? Bem, estou a caminho. Consciente e tentando bonito. A minha vida, minha inteligência e meus cães têm agradecido. Muito.

Nunca diga eu te amo para um homem, se você nunca o viu gargalhando

Coringa
Coringa

Não dá para falar que ama um homem, se você nunca viu a gargalhada dele. Mas tem que ser gargalhada mesmo, mero sorriso não vale. Tem que ser um riso rasgado, frenético, incontrolável, desses de mostrar todos os dentes.

Só depois de ver um homem rir ruidosamente é que você pode dizer com todas as letras, sem medo de errar, eu te amo, meu Coringa. Antes nunca. Para não correr o risco de ser chamada de mentirosa. Ou precipitada.

E por quê? Simples. Tem homem que gargalha tão feio, mas tão feio que dá vontade de rir junto. De pena.

Em contrapartida, tem homem que gargalha com tanto charme e espontaneidade que desperta um verdadeiro furor feminino. O desejo, nesses casos, deve ser outro: é um querer fazer feliz para sempre.
— Peraí que eu te conto mais uma piada. Sabe aquela do…?
Ou:
— Ria mais, meu lindo, gargalhe à vontade que eu realizo todas as suas vontades… Hahaha.

Por isso, só diga eu te amo depois de ter apreciado o gargalhar masculino. Só quando apreciar um homem rindo à beça é que você pode medir o quanto liga para a felicidade dele. E, principalmente, o quanto ele continua másculo e belo.

Nunca diga eu te amo para uma mulher, se você nunca a viu chorando

mulher chorando

Não dá pra falar que ama uma mulher, se você nunca viu o choro dela. Mas choro de felicidade não vale, não tem graça nenhuma. A expressão no rosto dela pouca muda. O que vale de verdade é quando o choro é doído.

Só depois de ver uma mulher chorando é que você pode dizer com todas as letras, sem medo de errar, eu te amo. Antes nunca. Para não correr o risco de ser chamado de mentiroso. Ou canalha. Ou mero aproveitador.

Eu, por exemplo, na minha vida de solteiro cometi vários desses deslizes. Dizia eu te amo antes de contemplar as lágrimas de minha pretensa amada caindo. Quanta decepção! Tem mulher que chora tão feio, mas tão feio que dá vontade de chorar junto. É um berreiro, um escândalo, um abrir de boca que dá medo.

Em contrapartida, tem mulher que chora com tanta delicadeza que desperta uma tremenda ternura masculina. O desejo, nesses casos, é outro: é um querer cuidar, proteger e botar no colo. Enxugar seu rosto com o próprio rosto ou delicadamente com o polegar, ao som de beijos doces e palavras de incentivo. Como gritos de guerra de uma torcida organizada:
— Não chora. Não chora.
Ou:
— Chora, meu bem. Pode desabafar, faz bem.

Por isso, só diga eu te amo depois de ter apreciado o choro feminino. Só quando vê uma mulher chorando é que você pode medir o quanto liga para a dor dela. E, principalmente, o quanto ela continua bonita.

Quanto mais idiota melhor

(ou a cultura do entretenimento vulgar)

Vivemos uma época de idiotização total do ser humano. Nenhum de nós (ou quase) quer ter o trabalho de pensar. Discutir, para quê? Debater, jamais! Todos nós só queremos curtir.

Assim rejeitamos toda forma de suor intelectual, de esforço mental, de diálogo útil em prol da zoeira e da felicidade. Porque ser feliz é o que vale na vida. Então todos nós somos piadistas, humoristas do cotidiano, principalmente nas redes sociais.

Os nossos comentários são sempre curtos e, na maioria das vezes, têm o objetivo de levar alegria aos olhos e ouvidos dos nossos amigos. É que temos que ser bacanas. Temos que mostrar ao mundo que somos pessoas de bem com a vida. Temos que aparentar que somos engraçados de verdade.

Se não, estamos fora do eixo. Somos excluídos, sofremos bullying. Bullying! Hahahahahahahahahahahhahahahahaha. Hashashashashashashashashas. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk… Rsrsrrsrsrsrsrssrrsrsrsrsrsrsrsrs.

É a cultura do riso fácil, imediato, instantâneo, acima de qualquer coisa. Basta rir e tudo está bem. Nada contra o bom humor, claro. Não sou um ranzinza inveterado. Eu adoro rir, quem não gosta? Mas não precisamos ser tão superficiais a todo momento. O riso alivia e acalma, mas em excesso, anestesia. É letárgico.

Daí nós não nos importamos com mais nada. Não estamos nem aí para as eleições municipais ou para o mensalão. Não ligamos que nos façam de tontos proibindo e depois voltando com as sacolinhas nos supermercados. Lei da Cidade Limpa em Ribeirão? Hahahahaha. Piada. É melhor rir. Mesmo?

As músicas monossilábicas, onomatopaicas proliferam-se como pragas em ambientes assim. “Galera, sem essa de se preocupar, vamos é se [sic] divertir. Eu quero tchu, eu quero tcha e … tchê tcherere tchê tchê tchê tchê.”

E viva o entretenimento! En-tre-te-ni-men-to. Palavra da moda, cultuada e perseguida por empresas e gente de carne e osso. Mas peraí, você sabe o que é entreter? Em boa parte, entreter significa distrair, recrear, fazer passar o tempo. Ou seja, se você entretém alguém não faz nada demais. Afinal, qualquer um, qualquer coisa pode entreter.  De uma mosca sem asas a uma bolinha de papel. De um palhaço sem graça a um plástico bolha.

Entreter por entreter é pobre, raso demais. Aliás, esse mundo está raso demais. Mini demais. Nossos pensamentos não podem ter mais do que 144 caracteres, nossas frases têm que ser diretas e objetivas. Uma linha apenas, duas no máximo. Caso contrário, ninguém tem paciência para acompanhar e o raciocínio se perde. O cérebro não processa. Entendeu?

Não? Espera um momento que vou desenhar, vou grunhir. Argh!

Que mundo raso! Ou como diria Nelson Rodrigues: “…tão profundo que uma formiga atravessaria com água pelos tornozelos”. Ou em outras palavras, bem simples: quanto mais idiota melhor.

A atitude é mais importante do que o talento

Em quase 10 anos dando aula, conheci muito mais alunos talentosos do que com atitude. Não que o talento esteja brotando por aí em qualquer beira de estrada, o problema é a escassez, a falta de gente com vontade de fazer.

O desinteresse, a preguiça, o “deixo a vida me levar, vida leva eu” parecem pautar o dia-a-dia de cada vez mais pessoas. Não é à-toa, portanto, que quem tem um pouquinho mais de disposição e energia frequentemente esteja alcançando maior sucesso. As empresas preferem quem põe a mão na massa.

É um desperdício gente com talento desprovida de iniciativa. Porque o talento, por si só, é estéril. Já a atitude, mesmo carente de engenhosidade, faz o mundo girar.

Não. Não estou aqui fazendo a apologia dos cabeças-de-bagre empreendedores. Na verdade, romanticamente, minha intenção é despertar nos inteligentes criativos a faísca que os coloque em movimento. Não é tarefa fácil. Mas vou seguir tentando, fazendo em vez de ficar só pensando, pensando…

Networking é o entrave para o desenvolvimento do mundo

Networking faz bem para mim. Networking faz bem para você. Mas para o mundo não faz bem não. É bom para o indivíduo, mas é péssimo para o coletivo.

Graças à sua rede de relacionamentos um bando de incompetentes assume cargos importantes em empresas públicas e privadas. Com isso, muitos projetos, atividades e trabalhos não saem como deveriam. É lamentável.

Seja sincero: quantas pessoas sem talento e competência você conhece que foram contratadas ou promovidas pelo simples fato de terem um bom círculo de amigos e/ou contatos? Eu conheço inúmeras. É a prática do QI (quem indica) que fala mais alto.

Diante do incontestável, eu nem vou me alongar mais. Apenas reforçar que o networking é o entrave para o desenvolvimento do mundo. Sem o networking, acredito, teríamos um mundo mais justo e amigável. Por mais contraditório que isso possa parecer.

Sobre networking leia mais em:
http://vocesa.abril.uol.com.br/edi29/max138.shl

A correria é a culpada de tudo

Correria, a maior vilã do universo. Inimiga da qualidade de vida, da perfeição, da alegria. A correria é a culpada por você não ter tempo para os amigos. É a culpada por você não conversar mais em família, não prestar atenção em quem você gosta. É a culpada por você estar sempre atrasado, atrás de algo que nem sabe direito o que é. A correria é a culpada por você não viver a vida, não aproveitar o dia. A correria é a culpada pelo erro, pelo stress e até pela ejaculação precoce. É a culpada por você ver menos filmes, ouvir menos músicas, ler menos livros, do que gostaria.

A correria é a culpada pelo briefing mal feito, pela criação meia-boca, pela mídia mal executada, pela apresentação tosca. A correria é a culpada por campanhas chatas, sem brilho nenhum.
– Não deu tempo. Eu tinha três jobs para entregar. Com essa correria, foi o que deu pra fazer.

A correria emburrece o homem. Deixa o cotidiano cinza.

Sabemos disso faz tempo, mas não fazemos nada. Não paramos. Não diminuímos o ritmo. Não diminuímos a marcha. Continuamos correndo, vivendo de modo insano. Por quê? Talvez por comodismo, meio de vida, quem sabe? Talvez porque se algo não sair bem, se algo der errado, teremos ao nosso lado um infalível bode expiatório:
– A culpa não foi minha. Foi da correria.

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